NARRATIVA DO SAMHAIN FIRE FEST 2026

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Narrativa do Samhain Fire Fest 2026

Por: Susana Maurício


A Roda de Fogo de Trebaruna

Reza a história que, depois do fogo de Beltane ter aberto a metade clara do ano, as aldeias e os povos da Serra de Sintra celebraram a seiva, a flor e o corpo vivo da terra.

Vieram depois os dias longos, o crescimento, a abundância e o alto sol de Litha. Mas, quando o verão atingiu o seu auge e a luz começou lentamente a recuar, algo mudou nos caminhos da nossa floresta.

Durante os primeiros meses, ao longo do estio que aqui se sente distinto das paragens mais quentes, as raízes avançaram sob a terra, a neblina regressou às manhãs e as primeiras folhas caídas anunciaram o tempo do recolhimento, ainda subtil. As vozes dos vivos tornaram-se mais baixas. Os nomes dos mortos voltaram a ser sussurrados junto às portas e às encruzilhadas. E, nas casas mais antigas, começaram a preparar-se oferendas para aqueles que regressam quando o véu se torna fino.

Porque há noites em que a terra se lembra, em que o micélio aprofunda e expande a sua rede milenar.

Há noites em que os passos antigos voltam aos caminhos, internos e externos.

Há noites em que o fogo enquanto nos aquece, também nos chama e nos adentra.

Há noites em que uma comunidade precisa de se reunir para não esquecer quem é.

Este Samhain é dedicado a Trebaruna, antiga divindade cultuada no ocidente peninsular, cujo nome chegou até nós gravado em pedra, entre votos, oferendas e inscrições rituais da antiga Lusitânia. Não conhecemos o seu rosto. Nenhum mito antigo nos chegou inteiro com o seu nome. Mas a pedra guardou a sua presença, e nela encontramos uma força ligada à comunidade, ao território habitado, à proteção dos que pertencem ao mesmo lugar e à palavra que, uma vez dada, deve ser cumprida. Permanecem entre nós os que a estudam, os que a cultuam e perpetuam a sua memória. Os que são a sua tribo, sabendo que aquilo que regressa ao fim não regressa igual.

Por isso, neste Samhain, Trebaruna surge, não como figura distante do passado, mas como presença antiga chamada de novo ao círculo: aquela que guarda a casa, o clã, a aldeia e o fogo comum.

Dizem os mais velhos que, no tempo da sombra e do recolhimento, antes da chegada do frio profundo, os clãs subiam a serra com archotes acesos e atravessavam a floresta até ao lugar onde a roda seria aberta. Levavam água, pão, sal, ervas, frutos da estação e palavras que não podiam ser ditas em vão.

No limiar da noite, entre o piar do falcão e o uivar dos lobos, era chamado o nome antigo daquela que guarda os que pertencem ao mesmo fogo.

Trebaruna.

Longe de ser uma rainha distante, ou imagem esquecida em pedra muda, Trebaruna é a presença antiga da comunidade, da promessa e do território habitado.

Aquela diante de quem a palavra dada permanece.

Aquela que guarda os vivos quando chamam os seus mortos.

Aquela que escuta atentamente e em sigilo quando uma comunidade se reúne para atravessar a noite.

Ao pôr do sol, quando a luz abandona a Quinta da Ribafria e a sombra começa a erguer-se sobre Sintra, abre-se a Roda de Fogo.

A água é consagrada e o archote atravessa a noite. O fogo desperta.

Os tambores chamam. A Velada aproxima-se.

E, por instantes, o antigo nome volta a respirar entre nós.

Durante três dias, reunimo-nos como tribos de uma só comunidade em torno da música, do teatro, da dança, do mercado, das oficinas, das histórias, das oferendas e das fogueiras. Celebramos os ciclos da natureza, honramos os que vieram antes e atravessamos juntos a noite em que o mundo visível e o invisível se tocam.

Quando as chamas se acenderem, juntos viveremos muito mais do que uma festa. Construimos memória, promessa, encontro.

Porque o Samhain não pertence apenas aos mortos, nem apenas aos vivos.

O Samhain pertence, sobretudo, à comunidade que se reúne entre ambos.

E quando os tambores começarem a soar, quando o falcão rasgar o silêncio e os lobos responderem da floresta, saberemos que a roda foi aberta.

Que o fogo foi aceite.

E que Trebaruna, a guardiã daqueles que juram permanecer juntos, caminha connosco.


QUEM É TREBARUNA?

O seu nome surge associado ao território da antiga Lusitânia, entre a atual Beira Interior portuguesa e a região de Cáceres, em contextos de votos, oferendas e práticas rituais.

A sua natureza permanece envolta em mistério. Não nos chegaram mitos completos, imagens seguras ou narrativas antigas que contem a sua história. Mas os vestígios que sobreviveram apontam para uma presença ligada à comunidade, ao lugar habitado, à proteção dos que pertencem ao mesmo território e à palavra dada em promessa.

No Cabeço das Fráguas, uma das inscrições mais importantes da língua lusitana, Trebaruna surge integrada numa sequência ritual de oferendas a várias divindades. Noutros altares, aparece ligada ao cumprimento de votos, como se a sua presença guardasse a relação entre promessa, proteção e dever cumprido.

A maioria dos testemunhos conhecidos concentra-se no interior centro da Península. Mas há um dado particularmente significativo para o nosso território: na villa romana de Freiria, em Cascais, foi encontrada uma ara dedicada a Triborunnis, nome que vários autores aproximam de Trebaruna como possível variante ou forma relacionada. Esta presença, ainda que discutida com prudência, aproxima o eco da antiga deusa da paisagem de Sintra, Cascais e do litoral atlântico onde hoje celebramos o Samhain Fire Fest.

Por isso, este Samhain não invoca Trebaruna como figura distante ou narrativa poética, mas como memória antiga chamada de novo ao círculo: guardiã da comunidade, do fogo comum e daqueles que juram permanecer juntos.

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